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11/05/2011

Liturgia do divino motor

De vez enquando é bom ouvir/ler alguém que destoe do coro 'único' em favor da vida motorizada e nos faça pensar. Nesse sentido ler Eduardo Galeano é sempre positivo. É bom não esquecer que quando paramos de questionar nos amansamos e nos acomodamos. Penso que a mansidão cômoda serve bem a rebanhos, não a homens livres.


Liturgia do divino motor

Por Eduardo Galeano

"Com o deus de quatro rodas acontece aquilo que costuma acontecer com os deuses: nascem a serviço das pessoas, mágicos conjuros contra o medo e a solidão, e acabam pondo as pessoas a seu serviço. A religião do automóvel, que tem seu vaticano nos Estados Unidos da América, tem o mundo de joelhos a seus pés.

Seis, seis, seis – A imagem do Paraíso: todo norte-americano possui um carro e uma arma de fogo. Os Estados Unidos detém a maior concentração de automóveis e também o mais numeroso arsenal de armas num único país, os dois negócios básicos da economia nacional. Seis, seis, seis: de cada seis dólares gastos pelo cidadão médio, um é consagrado ao automóvel; de cada seis horas de vida, uma é dedicada a viajar de carro ou a trabalhar para pagá-lo; e de cada seis empregos, um está direta ou indiretamente ligado ao automóvel, e outro está direta ou indiretamente ligado à violência e suas indústrias.

Quanto mais gente os automóveis e as armas assassinarem, e quanto mais natureza eles destruírem, mais crescerá o Produto Interno Bruto. Como bem diz o pesquisador alemão Winfried Wolf, em nosso tempo, as forças produtivas transformaram-se em forças destrutivas. Talismãs contra o desamparo ou convites ao crime? A venda de carros é simétrica à venda de armas, e bem se poderia dizer que faz parte dela: os acidentes de trânsito matam e ferem, a cada ano, mais norte-americanos do que todos os norte-americanos mortos e feridos ao longo da Guerra do Vietnã, e a carteira de motorista é o único documento necessário para qualquer um comprar uma metralhadora, e com ela cozinhar à bala toda a vizinhança.

A carteira de motorista não é apenas usada para estes fins; ela também é imprescindível para pagamentos com cheques ou para sacá-los, para fazer um trâmite burocrático ou para assinar um contrato. Nos Estados Unidos, a carteira de motorista serve como documento de identidade. Os automóveis outorgam identidade às pessoas.

Os aliados da democracia – O país conta com a gasolina mais barata do mundo, graças aos presidentes corruptos, aos xeques de óculos escuros e aos reis de opereta que se dedicam a malvender petróleo, a violar direitos humanos e a comprar armas norte-americanas. A Arábia Saudita, por exemplo, que aparece nos primeiros lugares das estatísticas internacionais pela riqueza de seus ricos, pela mortalidade de suas crianças e pelas atrocidades de seus verdugos, é o principal cliente da indústria norte-americana de armas.

Sem a gasolina barata fornecida por estes aliados da democracia, o milagre não seria possível: nos Estados Unidos, qualquer um pode ter um carro e muitos podem trocá-lo freqüentemente. E se o dinheiro não for suficiente para o último modelo, já estão à venda aerosóis que dão aroma de nova àquela velharia comprada três ou quatro anos antes, àquele autossauro.

Dizes que carro tens e eu te direi quem és e quanto vales. Esta civilização que adora carros tem pânico da velhice: o automóvel, promessa de juventude eterna, é o único corpo que pode ser trocado.

A gaiola – A esse outro corpo, o de quatro rodas, é dedicada a maior parte da publicidade na televisão, a maior parte das horas de conversa e a maior parte do espaço das cidades. O automóvel dispõe de restaurantes para se alimentar de gasolina e óleo, e tem a seu serviço farmácias para comprar remédios, hospitais para ser examinado, diagnosticado e curado, dormitórios para dormir e cemitérios para morrer.

Ele promete liberdade às pessoas; por alguma razão as estradas são chamadas de freeways, caminhos livres, e no entanto atua como uma gaiola ambulante. O tempo de trabalho humano foi reduzido em pouco ou nada, e porém ano após ano aumenta o tempo necessário para ir e voltar ao trabalho, devido ao trânsito atolador, que nos obriga a avançar penosamente e às cotoveladas.

Vive-se dentro do automóvel e ele não larga do nosso pé. Drive by shooting sem sair do carro, à toda velocidade, pode-se apertar o gatilho e disparar a esmo, como está em voga nas noites de Los Angeles. Drive thru teller, drive by eating, drive in movies: sem sair do carro pode-se sacar dinheiro do banco, comer hambúrgueres e assistir a um filme. E sem sair do carro pode-se contrair matrimônio, drive in marriage: em Reno, Nevada, um casal passa com o seu automóvel por baixo de arcadas de flores de plástico; numa janelinha aparece a testemunha e na outra o pastor, que os declara marido e mulher, bíblia nas mãos e, na saída, uma funcionária ornamentada de asas e auréola entrega a certidão de casamento e recebe a gorjeta, chamada de love donation.


O automóvel, corpo renovável, tem mais direitos que o corpo humano, condenado à decrepitude. Os Estados Unidos da América empreenderam, nestes últimos anos, a guerra santa contra o demônio do fumo. Nas revistas, a publicidade dos cigarros aparece atravessada por obrigatórias advertências à saúde pública. Os anúncios advertem, por exemplo: “A fumaça do cigarro contém monóxido de carbono”. Mas nenhum anúncio de automóveis adverte que muito mais monóxido de carbono contém a fumaça dos automóveis. As pessoas não podem fumar. Os carros, sim."

04/05/2011

Meu filho pedalando e muito mais: Tudo em um SEGUNDO!


Meu filho pedalando e muito mais: Tudo em um SEGUNDO!


Tudo aconteceu em uma bela tarde de outono. Foi assim: de repente, quando me dei por conta estava lá, parado como um poste, hipnotizado, com o meu olhar fixo naquele pedacinho de gente que ziguezagueava em sua bike pela área de estacionamento do condomínio.

Naquele segundo em que reconfirmei minha condição de “Pai coruja” (cheio de orgulho em ver a cria pedalando e sorrindo como somente uma criança sabe), foi também o momento em que me dei conta que a “roda da vida” havia girado para mim, agora como pai via o mundo de outra perspectiva e isso foi uma ótima sensação...

Foi um segundo intenso, passaram pela minha mente várias lembranças, indagações, constatações e outros tantos sentimentos que nem sei bem explicar, e isso tudo aconteceu sem um único gole de cerveja! Fiquei mais alguns instantes fruindo o momento e me dei conta que era pura verdade o que dizem os mais velhos: Ser pai é vibrar com as conquistas de seus filhos, dividir suas incertezas e confiar em seus potenciais. A frase é batida, mas é a pura verdade: As vitórias dos filhos são também dos pais.

Isso tudo me fez sentir uma pessoas melhor e capaz de entender na totalidade o amor que recebi em casa. Talvez um dia meu pequeno garoto tenha esse mesmo sentimento ao ver meus netos pedalando, quem sabe?


Vêeeem pedalar paaaiii!


Era meu ciclista favorito gritando, larguei de bobeira e fui correndo pegar uma bicicleta! Aprendi que ser pai é também pedalar junto!




01/03/2011

De quem é essa cidade???


De quem é essa cidade?

De quem é essa cidade, afinal? Essa é a pergunta que me vem à cabeça quando leio as notícias sobre o nosso trânsito. Sinto uma quase depressão, uma tristeza que me aperta o peito e faz pensar se é esse o lugar que quero para criar meus filhos, cultivar amizades e depositar minha existência. Será que é possível viver feliz em um lugar no qual máquinas são mais importantes que pessoas?
Em Porto Alegre (e em milhares de outras cidades) a regra é bem clara: A PRIORIDADE É PARA QUEM TEM CARRO. Os que ousam desafiar esse pensamento são vistos como lunáticos, seres quixotescos que não devem ser levados muito a sério. Os carros não têm vida, nada mais são do que pedaços de metal e outros componentes, criados pelo homem para nos servir... Mas o fato é que o carro e toda a ideologia embutida em seu uso traz consigo um pesado fardo para a vida em comunidade. Poluição, acidentes, ocupação de espaços verdes para a construção de estacionamentos e pistas de rolamento seguem em um ritmo frenético e que nunca será saciado.
A prefeitura (a atual e anteriores) segue a mesma cartilha surrada há décadas, privilegiando as máquinas e esquecendo das pessoas. Quantas ciclovias foram efetivamente feitas? Quantas pessoas, todos os dias, tropeçam em calçadas desniveladas, esburacadas e mal iluminadas? Pergunto: isso também não são acidentes de trânsito? Calçadas e ciclovias não merecem também a nossa atenção?
Esses são apenas alguns dos motivos que me levam a afirmar que nossa cidade nos foi usurpada por uma máquina: o automóvel!
A cidade dos carros é cruel com aqueles que desafiam o seu poder motorizado. Pedestres, ciclistas, usuários do transporte público são oprimidos em uma ditadura digna de causar inveja em Gaddafi, Pinochet e companhia. Não há espaço para alternativas e dissidências...
O caso da semana passada, quando um grupo de 'subversivos' teve a ousadia de contrariar o domínio do carro é emblemático e deveria ser tomado como dia do basta!
É preciso, mais do que nunca, deixar claro que o automóvel sozinho não é a solução para os problemas de deslocamentos nas cidades. Como caminhões não resolverão sozinhos os problemas de transporte de cargas pelo país, entupir as cidades de carros não trará mais mobilidade para as pessoas, bem ao contrário.
Essa música tocada com uma única nota já não encanta mais os ouvidos. Outras formas de transitar são possíveis e necessárias para a oxigenação de nosso trânsito. Trens e hidrovias precisam ocupar seus espaços nos transportes de longas distâncias de nosso pais continental; é mais barato, seguro, ecológico e, portanto, mais racional.
Nas cidades, o carro ocupa espaço demais. Metrôs, ônibus elétricos e barcos em cidades banhadas por águas, como Porto Alegre, são as saídas mais inteligentes para transportes de massas, não usá-las é pura burrice. Não prego o fim do automóvel, mas sim a racionalização de seu uso.
Não uso a bicicleta em meu cotidiano. Confesso isso com certa vergonha, pois gostaria de pedalar por Porto Alegre, mas confesso também que tenho medo. Na verdade não encorajo ninguém a pedalar hoje nas ruas, já que isso é normalmente encarado por aqueles que andam em carros quase como uma ofensa, um ataque ao espaço privado do carro. Andar de bicicleta nas vias de uma grande cidade deve ser encarado como esporte radical. Saltar de paraquedas ou voar de asa delta é mais seguro...
Mas ao mesmo tempo em que fico triste com o que acontece, também reacendo minha esperança em dias melhores. Ditaduras caem, comportamentos mudam (mesmo com resistências) e, enquanto houver pessoas que ousam e questionam em busca de uma vida melhor, ainda há esperança!
Torço com grande intensidade que esses 'malucos' que pedalam pelas ruas sejam mais respeitados, que não esmoreçam em sua luta e usem capacetes. Senti vergonha alheia pela atitude desse senhor que acelerou covardemente sobre o grupo de ciclistas, mas ao mesmo tempo tenho orgulho de ver que existem em Porto Alegre pessoas com personalidade e coragem para impor suas ideias.
Talvez tenha chegado o momento, mesmo que tardiamente, dessa cidade requerer simplesmente algo que é de seu direito: a rua para quem anda de bicicleta, a calçada para os pedestres e a cidade de volta para seus verdadeiros donos: as PESSOAS!

20/01/2011

As manchetes que nos envergonham


O mais triste nessa história é que essas manchetes já não causam o impacto que deveriam causar, pois, ao olharmos as estatísticas vemos que a cada ano a violência aumenta, sinal de que estamos inertes, admirando o monstro crescer e ficar mais feroz a cada dia. Ano a ano batemos nossos recordes de mortes, a cada feriado superamos as tragédias do ano anterior, assim segue nossa maldita rotina! Veja os números abaixo.
Número de mortes no trânsito no RS*:
2008 - 1424
2009 - 1479
2010 - 1705
Sinceramente, o que nos resta fazer agora? O ano mal começou e o 'monstro' já dá sinais que continua sedento de sangue. Sugiro que as próximas manchetes sejam escritas da seguinte forma: VERGONHA! O número de acidentes...
Pois do jeito que está só nos resta ter vergonha de nossa estupidez crônica e irracional.


* fonte DETRAN/RS
jornal Zero Hora, edição de 20/01/11

06/12/2010

Sugestão para o Papai Noel que há em você!


Sugestão de presente, afinal é tempo do velho Noel. Mais importante ainda, nessa época do ano podemos refletir sobre nossos erros e acertos e ver que temos muito mais a agradecer do que lamentar ou reclamar.
Minha dica para um presente bem legal é auxiliar o serviço que a AACD (Associação de Assistência à criança com deficiência) realiza. Essa instituição é uma daquelas que nos faz ainda acreditar que esse país tem jeito! O amor e dedicação das pessoas que trabalham nas (ainda poucas) unidades de atendimento espalhadas pelo Brasil trazem esperança à crianças e famílias de muitas regiões. O trânsito, infelizmente, todos os anos leva muitas pessoas a necessitar de cuidados especiais e a AACD também auxilia essas vítimas, nesse sentido torna-se ainda mais essencial a manutenção dessa organização.
Para ajudar é bem simples, é só entrar no link abaixo e escolher um valor de doação!






Conheça melhor em que áreas a AACD atua:

18/11/2010

A impessoalidade nos acidentes



Já notaram que em boa parte das notícias que vemos nos meios de comunicação os acidentes de trânsito são relatados de tal forma que o 'fator humano' é praticamente deixado de lado. Carros, estradas, postes, chuva, curvas, etc. são apresentadas como as primeiras responsáveis pelos ocorridos... Quando falamos que 'um CARRO atropelou um pedestre' esquecemos que uma máquina não tem vontade própria (salvo em filmes de ficção), mas seus donos e condutores sim!
Então devemos pensar diferente e dar o crédito a quem realmente merece, a manchete acima poderia ser assim: Condutor derruba um poste com o seu carro. Esse é o fato, o resto é continuar não enxergando a realidade.

28/10/2010

Por quê???


Afinal, por que agimos de forma tão irracional? Por que nos expomos a riscos sem a menor necessidade e explicação aparente?

Tenho certeza que você já se fez essa pergunta após ler os jornais com manchetes denunciando finais de semana e feriados sangrentos em nossas vias. Engenheiros, políticos, educadores e órgãos de fiscalização acreditam que, sem desmerecer o outro, seria necessário dar mais valor para a sua área em questão, para aí então reduzir efetivamente os problemas em nosso transitar...

No entanto, lembro que mesmo em locais do mundo onde se conseguiu atingir bons resultados na qualidade do trânsito as 'tragédias' continuam existindo (em quantidade infinitamente menor do aqui, mas continuam existindo). A situação é mais assustadora quando olhamos para países em que o sistema de trânsito é ineficaz ou mesmo inexistente, nesses casos a situação torna-se quase insuportável.

Mas a questão que gostaria de abordar é o fato de que existe algo que parece escapar ao domínio do Estado a despeito de seus aparatos coercitivos. Há algo no humano que não pode ser educado de fora para dentro, existe algo que alguns (ou todos??) indivíduos levam consigo que foge da racionalidade. A sociedade sabe que existe limites de velocidade, por exemplo, mas eles não são respeitados. As pessoas sabem do perigo entre conjugar o álcool e a condução de veículos e mesmo assim dirigem sob efeito dessa substância. Diriam muitos (inclusive eu) que falta educação, fiscalização, leis, etc, e por isso ocorrem acidentes levando pessoas a perderem a vida todos os dias nas estradas e ruas do Brasil. Tudo bem, mas tem algo mais nessa história. O que nos leva ao perigo conscientemente? Para entendermos os problemas de nosso trânsito precisamos entender que o ser humano é composto também de 'irracionalidades' e incoerências do que somente lógica e coerência, se é certo que existe uma pulsão de vida, é certo também que há uma pulsão de morte.

A melhor tradução que encontrei para essa ideia foi em um trecho do conto: O Demônio da Perversidade, de Allan E. Poe. Reproduzo uma pequena parte desse conto, onde em uma alegoria da psique humana, Poe abre as portas de nossas fraquezas e tentações 'demoníacas'.

Penso ser possível estabelecermos relações com os riscos que nos colocamos ao transitarmos, sem muitas vezes nos atentarmos... Uma das mensagens de seu texto é que sem ajuda ficamos desamparados, nesse sentido a informação, a educação a fiscalização e, em geral, um forte sistema de trânsito são os amigos que nos podem livrar dos abismos!

"... agimos sem um objetivo compreensível; ou, se quisermos entendê-lo como uma contradição para dizer que, através de seu estímulo, agimos pela razão de que não deveríamos agir. Em teoria, nenhuma razão poderia ser mais irracional, mas, de fato, nenhuma existe que seja mais forte. Em certas mentes, sob determinadas condições, torna-se completamente irresistível. Assim como tenho certeza que respiro, sei que a consciência do certo ou do errado de uma ação é frequentemente a única força incontestável que nos impede para a sua realização; e nos impele isoladamente, sem nada mais o faça...É um impulso radical e primitivo - um impulso elementar...Segue-se então, que o desejo de estar bem deve ser excitado...~Paramos à beira de um precipício. Nossa visão se projeta para o abismo, somos tomados por uma assomo de náusea e vertigem. Nosso primeiro impulso é de nos afastar-nos do perigo. Sem a menos explicação, permanecemos ali. Lentamente nosso enjoo, nossa tontura, nosso horror se mesclam a uma nuvem de sentimentos indizíveis. Gradativamente, ainda mais imperceptível, esta nuvem toma forma, como o vapor que surgiu da garrafa de Aladim e formou o gênio nas Mil e Uma Noites. Porém desta nossa nuvem à beira do despenhadeiro, torna-se progressivamente palpável de uma forma muito mais terrível que a do gênio, muito mais horrenda que a de qualquer demônio lendário; e no entanto, é somente um pensamento, por mais amedrontador que seja, que nos gela até a medula dos ossos com a ferocidade inerente à delícia de seu pavor. É meramente a ideia de qual seria a nossa sensação durante o mergulho precipitado de uma queda de tal altura. E esta queda - esta aniquilação rápida - pela própria razão de invocar a ideia de morte nos faz agora desejar saltar vividamente. E uma vez que a nossa razão violentamente nos impede que cheguemos a borda, justamente por isso nos aproximamos mais impetuosamente...Deter-se, ainda que por um momento, na contemplação desse pensamento de saltar ou não, é estar inevitavelmente perdido... Se não houver um braço amigo que nos ampare, ou se não fizermos um esforço súbito para nos afastarmos do abismo, saltaremos e seremos destruídos"




* Trecho do conto de Edgar Allan Poe, O demônio da perversidade. pp 12/13. L&PM, 2010. Porto Alegre.

15/10/2010

Transgressões bovinas




Transgressão urbana inteligente, coisa rara por esses lados! Saudades do tempo em que pelo menos as pichações eram de protesto...
O espaço urbano, ao ser usado como espaço de expressão de ideias e sentimentos transforma-se em um palco. A 'artistagem' transgressora dos que se apropriam desse espaço é como uma granada que explode, lançando estilhaços para todos os lados, não escolhendo seus alvos e não tendo dó de suas 'vitimas'! Porém, o que se nota hoje é o desarmamento de mentes que estão cada vez mais mansas e conformadas (muuuuu).
Há algum tempo, estudantes¹ resolveram gritar (e não mugir, hehehe) com a sociedade do automóvel e da poluição em Porto Alegre. Inicialmente foram algemados e tratados como vândalos, após vistos como 'desajustados' sem mais o que fazer... Esses estudantes foram ousados e, em seu surto artístico, ousaram mostrar aquilo que todos já não viam mais. Foi um protesto, mas também foi uma obra de arte, palmas para eles.
Não vou entrar no mérito de qualidade, mas sim na possibilidade de comunicação transgressora e crítica no espaço de uma cidade que massifica e tende a homogenização coletiva. Transgredir na busca de novas perguntas é o oxigênio de uma sociedade viva.
Banksy (artista urbano inglês) com certeza influenciou em algum momento os jovens artistas de Porto Alegre que ousaram limpar a sujeira do túnel com palavras de alerta. Agora a cidade se enche de vacas pelas ruas, tá é legalzinho, é arte e arte não precisa ter um fim, um objetivo por que ela (a Arte) já é um fim em si mesma e blá-blá-blá.
Mas confesso que tenho saudade das pichações de protesto...




07/10/2010

MAS QUE INVEJA!

A EUROPA: A malha ferroviária da Europa é composta por mais de 280 mil quilômetros e seus trens, além de rápidos, são muito confortáveis, pontuais e econômicos, sendo possível atravessar de um país a outro em poucas horas. Somente na Suiça, foram 322 milhões de passageiros em 2008!

NO BRASIL: Não existem mais trens regulares de passageiros, tirando apenas duas exceções (os trens da Vale do Rio Doce, Belo Horizonte-Vitória e São Luiz-Carajás) e uns poucos trens metropolitanos. Os dados do Anuário Estatístico dos Transportes Terrestres mostram que em 1996, eram 4,3 milhões de passageiros e em 2005, foram apenas 1,5 milhão nas poucas linhas que ainda resistem.

São exemplos extremos, mas pelas nossas características geográficas não usar massivamente o trem como meio de transporte de cargas e pessoas é, no mínimo, uma falta de inteligência! O preço de instalação de uma ferrovia é considerado alto somente para aqueles que não conseguem ver a médio e longo prazo. A Europa e muitas outras regiões do mundo provam que esse é um meio de transporte que se paga. Economia e redução de tempo nos deslocamentos, de emissão de poluentes e diminuição de acidentes são apenas alguns dos seus pontos positivos. Hoje (ver notícia link abaixo) foi divulgado um grande investimento pelos britânicos (US$ 1,1 bilhão) em trens de alta velocidade para aquele país. E nós, aqui no sul do Brasil, levamos mais de trinta anos para completar um trecho de 30 km de um trem metropolitano!

Que inveja!



P.S.: A inveja é uma merda!!!


* notícia:

29/09/2010

Em tempos de eleição

Em tempos de escolha de candidatos, sempre é bom lembrar que essa história de desenvolvimento como sinônimo de 'asfalto e carros' já vêm de longe.
Mas tudo bem, os tempos (penso eu) mudaram e hoje desenvolvimeto não pode estar descolado da palavra da moda: Sustentabilidade. Energia, transporte, emprego, economia e outras plataformas de governo precisam acompanhar os novos tempos. No entanto, ainda o que dá voto é asfaltar ruas, mesmo que essas ruas continuem, por de baixo desse asfalto, sem rede de esgoto, água tratada e sem calçadas decentes para os pedestres.
Desenvolvimento sim, porém, com sustentabilidade.


22/09/2010

Na cidade, sem meu carro


Dia 22 de setembro ocorre a iniciativa "Na cidade sem meu carro", mais que um evento esse dia serve para pensarmos uma forma de mobilidade diferente da atual. As nossas cidades que sofrem com o sufocamento gerado pelo uso idiscriminado do carro e de outros veículos poluentes merecem um momento de reflexão sobre o tema.
O Instituto da Mobilidade Sustentável - Rua Viva é um dos grandes defensores e divulgadores dessa idéia aqui pelo Brasil, abaixo deixo parte do texto que pode ser encontrado no site da Instituição, vale a pena pensar no assunto...



"Todos os dias andamos em calçadas estreitas enquanto carros ocupam extensos espaços da “via pública”, com largas vias para estacionarem; essas mesmas calçadas quase sempre cheias de buracos, onde mães com carrinhos de crianças e pessoas com deficiência fazem verdadeiras aventuras de obstáculos para chegarem a seus destinos, sofrendo acidentes, pois as casas deixam as calçadas cheias de rampas para a entrada dos carros.E a bicicleta, onde heróis anônimos arriscam a vida todos os dias para chegarem a seus trabalhos, e as crianças, às suas escolas.A rua, ao invés de espaço de vida, é o espaço do medo; das mortes, onde carros passam em alta velocidade por dentro de calmos bairros cheios de crianças, idosos e pessoas com deficiência – os seres mais frágeis - levando diariamente a morte a vários locais das cidades.Os ônibus, por falta de alternativas, trafegam em meio aos imensos congestionamentos provocados pelo excesso de carros que entopem nossas ruas, tornando a tarifa mais cara e a rotina de deslocamento insuportável, do transporte fluvial sem políticas e abandonado totalmente a soluções de mercado..." fonte: http://www.ruaviva.blogspot.com/